sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O dia



'Um dia quase inútil. Como sempre, perdido entre milhões.

Voltei aos lugares que me faziam sentir livre, mas nenhum deles continua com o mesmo brilho de antes.
Enfim, me restava a rua úmida e mal iluminada...
Valeram a pena os poucos passos sozinhos que dei, pois o cheiro de terra molhada e o frio que me acompanhavam na estreita esquina que acabara de dobrar o meu destino, me fizeram, e fazem, ter orgulho do que fiz e do que sou.

Então, quando eu já nem precisava tanto, lá estava. E estava como sempre esteve, como meu maior desejo.
Em pouco tempo, menos do que normalmente seria necessário, me convenceu de que a distância e o frio da noite interminável eram menores do que o prazer de ouvir a verdadeira voz de quem estava do outro lado, de onde antes eu não podia ouvir.

Fazia tempo que já não sentia o frio na barriga que me fazia transbordar de ansiedade e apreensão.

Depois de muito, quando lá cheguei, eu vi sob o radar e pouca luz o que em tão pouco tempo, desejei com tão grandiosa força. Nesse momento a agonia deu lugar a satisfação e a expectativa.

De repente, estava no último lugar que eu achei que estaria quando acordei naquela manhã. E foi lindo, foi mágico... desde as doces palavras até o tocar dos lábios.

Então ali, naquele momento, percebi que o acaso é o melhor tempero para o amor dos loucos.

Isso é voar



'Está andando no corredor das árvores com um lindo sol que brilha por entre as folhas e ilumina o seu corpo só que está andando de braços baixos.Não pode ver a linda paisagem, pois está vendado, mas ao menos pode ouvir, e ouve o barulho que o vento faz ao empurrar as folhas pelos ladrilhos do chão enquanto continua a andar.

'O pobre corpo só não consegue sentir nada além de medo. Medo de não saber pra onde está indo ou de cair e não conseguir levantar para continuar andando.

'Então, sente o vento aumentar, e aumentar muito... Ele para. Espera o vento passar. Quando o vento para surge do meio do nada uma linda música...

'Sente em seu rosto um toque frio e suave... Com a ponta dos dedos. Continua ali, parado e de braços baixos.
Como um véu, o suave toque daquela mão percorre sua face até chegar em sua nuca. Esta, abre a venda que estava presa ao seu rosto. A venda cai, e o pobre corpo só, se depara com um lindo anjo. Um anjo de longas asas, e que não tem os cabelos longos como os outros anjos.
O coração pulsa. Pulsa tão forte que ele não consegue conter o sorriso que sua alma deseja esboçar.

'Com as mãos do anjo em sua nuca, ouvindo a linda música, e em um lugar tão bonito, pergunta ao anjo:

"-Isso é voar?

'Sem perceber a aproximação dos rostos, o belo anjo toca os lábios do corpo só, mas agora, com sua própria boca... E o beija. O beija no auge da linda música... O corpo que antes era só, agora sente-se flutuar. Sente as longas asas se estendessem em volta de seu corpo gelado, esquentando-o. E sente amor... o amor que agora existe entre ambos os dois que estavam ali.
Depois de longos minutos o anjo afasta o seu rosto e diz com um tímido sorriso:

"-Isso é voar.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Eu, mas não eu mesmo




'Quando acordei pela manhã, jamais imaginei que estaria aqui. Aqui onde estou.
Em frente a um espelho que não reflete nada. Nada além do meu rosto frustrado e incorrespondido. Nada além de meus pulsos presos a correntes que eu não sei de onde vem. Nada além de minha roupa suja contrastando o fundo branco, mas sem luz.
'É, na verdade, o espelho não está mentindo pra mim... Sou exatamente o que está ali. Sou o amor sufocado que virou angustia e confusão. Sou o ódio que aponta os dedos calejados em minha própria direção. Sou um pesadelo que não sabe fingir-se de sonho. Sou alguém que grita pra que tirem logo aquele espelho dali, mas parece que estou mesmo sozinho, pois ninguém me ouve, e quem me ouve, me nega.

'Olá, eu sou o arrependimento.